segunda-feira, 9 de abril de 2007

Não estou imune aos pensamentos abstratos ou idéias vaganteantes.

Leia e reflita. Perceba se a referência do trecho não leva a concluir que realmente a raça humana evoluiu e está evoluindo, por mais que - contemporaneamente - pareça o contrário , mesmo que em lentos, largos e vagarosos passos.
"A imagem da verdade, sempre depende do ponto em que referenciamos a análise da situação"
Sangrentas Escrituras
Oscar Calavia Sáez *

Cassiano de Ímola era um mestre-escola: seus alunos, filhos de cidadãos romanos, aprendiam com ele as primeiras letras, rabiscando nas suas tabuinhas enceradas com um estilete de aço. Cassiano era severo e resistia a dar férias a seus alunos, dado que o ensino era pago por dias. Cristão, Cassiano devia ter muitos outros defeitos aos olhos de uma idade em que qualquer um é mais ou menos pagão. Mas eis aqui que um dia a perseguição religiosa chegou a Ímola: os éditos imperiais, como sempre, ordenavam aos cristãos sacrificar aos falsos deuses de Roma. Cassiano foi chamado, como já outros tinham sido, e mostrou a mesma irredutibilidade dos seus companheiros de seita: leões, óleo fervente, ganchos de ferro? Bem vindos pelo amor de Cristo! O juiz romano, porém, estava enfastiado daquela cruel mesmice. Teve então uma idéia nova: remeteu Cassiano, nu e atado de pés e mãos, aos seus alunos.
Foi uma festa para as crianças: divertidas, empunharam seus estiletes e se aproximaram lentamente do mestre. Quebraram-lhe no rosto as tábuas de cerâmica e ensaiaram no seu corpo o que dele tinham aprendido: escreveram, por uma vez, à vontade. Os estiletes tinham um punção do outro lado: furavam e cortavam alternativamente, mas não eram instrumentos feitos para matar, nem as forças das crianças eram forças de carrasco, de modo que a agonia do mestre foi longa, e ainda embalada pelos comentários cínicos dos seus discípulos:
"Apraz-nos marcar os pontos, as letras enlaçar às letras, ligar os curvos traços; corrige as nossas linhas, se é que errou alguma mão torpe; exerce tua autoridade, podes castigar a falta, se é que algum de teus alunos escreve em tua carne com pouco afinco!"
Brincavam assim as crianças com os membros do mestre, e o longo suplício não liberava o arrasado mártir. Enfim, do alto Éter Cristo apiedou-se do combatente; fez soltarem-se as ligaduras do peito e a penosa resistência do fôlego. O sangue da interior fonte pelas vias abertas abandonou o peito; por todas as fendas o corpo crivado e ofegante exalou o calor de suas entranhas.
O texto está tirado do Hino IX do Peristephanon de Marco Aurélio Prudêncio, o primeiro grande poeta cristão de expressão latina e autor de uma rica série de obras que aparecem entre o final do século IV e começos do V. Peristephanon é de longe a principal delas, e tem exercido uma influência durável na literatura cristã. Ao ouvir da história de Cassiano de Ímola não é difícil que o leitor lembre do relato da Colônia Penitenciária de Franz Kafka, em que de modo um tanto parecido uma máquina infernal trucida um réu, gravando sobre seu corpo, até esmigalhá-lo, as verdades da lei. Pode se datar a partir dela toda uma linha de reflexões sobre o modo em que a Ordem se fixa no corpo do indivíduo, a ferro ou fogo; mas o relato de Prudêncio é na verdade mais perturbador, já que a escrita, uma das formas mais elementares da ordem imperial, aparece aí, por uma vez, para se insurgir contra si mesma.

* Professor do Departamento de Antropologia da UFSC ()
Trecho do artigo “Religião e restos humanos. Cristianismo, corporalidade e violência.” - Antropologia em primeira mão / Programa de Pós Graduação em Antropologia Social, Universidade Federal de Santa Catarina, n.1 (1995).
Fonte: http://www.antropologia.ufsc.br/55.%20oscar-cristianismo.pdf

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