Vejam o artigo da conhecida colunista Cora Ronai.
Em um momento tão sensível como o que atravessado recentemente, é compreensível a afloração de alguns sentimentos envoltos de trevas. Sua raiva pode ser entendida, respeitada - mesmo não concordando com sua opinião - mas perceba que tipos de sentimentos estão sendo disseminados em suas linhas... formam um mix de desejos, que podem incluir violência contra violência, vingança, punições com torturas, grupos de extermínio, e ainda outros desejos que chegam até simular punição de igual forma ao crime praticado.
O ato de "trancar e jogar a chave fora" é sempre uma das soluções mais fáceis para nossa sociedade. Ainda mais fácil, como muitos defendem, seria provejarmos leis que visam pena de morte nesses tipos de crimes. Assim, em vez de prender, mataríamos, solvendo nossa consciência de todo tipo de cobrança e responsabilidade. Mesmo que essas sejam advindas de outras importantes etapas, ações e assistências sociais, em que a necessária ação do Estado e atuante cobrança da sociedade seja omissa ou inexistente.
Precisamos analisar a situação - não somente um caso isolado - como um todo, isenta até de emoções, que compreensivelmente entorpecem a razão, afastando-a da coerência dos bons e justos homens.
A atual violência em nossa sociedade é um monstro crescente de "conseqüências" vestido e visto em pele de "causas".
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Em um momento tão sensível como o que atravessado recentemente, é compreensível a afloração de alguns sentimentos envoltos de trevas. Sua raiva pode ser entendida, respeitada - mesmo não concordando com sua opinião - mas perceba que tipos de sentimentos estão sendo disseminados em suas linhas... formam um mix de desejos, que podem incluir violência contra violência, vingança, punições com torturas, grupos de extermínio, e ainda outros desejos que chegam até simular punição de igual forma ao crime praticado.
O ato de "trancar e jogar a chave fora" é sempre uma das soluções mais fáceis para nossa sociedade. Ainda mais fácil, como muitos defendem, seria provejarmos leis que visam pena de morte nesses tipos de crimes. Assim, em vez de prender, mataríamos, solvendo nossa consciência de todo tipo de cobrança e responsabilidade. Mesmo que essas sejam advindas de outras importantes etapas, ações e assistências sociais, em que a necessária ação do Estado e atuante cobrança da sociedade seja omissa ou inexistente.
Precisamos analisar a situação - não somente um caso isolado - como um todo, isenta até de emoções, que compreensivelmente entorpecem a razão, afastando-a da coerência dos bons e justos homens.
A atual violência em nossa sociedade é um monstro crescente de "conseqüências" vestido e visto em pele de "causas".
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A cidade sufocada
Cora Ronai - O Globo, 15/02/07
Cora Ronai - O Globo, 15/02/07
Como qualquer pessoa que mora no Rio, eu também não agüento mais ler, dia após dia, notícias sobre a violência sempre crescente na cidade. Quando a gente acha que pior do que está não pode ficar, acontece um caso como este terrível martírio do menino João Hélio, que nos parte o coração já despedaçado. É o fundo do poço? Não dá para saber: escrevo na terça-feira, e não sei o que poderá acontecer entre este momento e aquele em que o leitor terá o jornal em mãos. Nosso poço não tem fundo. Há sempre outro, mais fundo, até o inferno.
Desta vez, porém, algo se sobrepõe ao sentimento de impotência que me toma a cada nova atrocidade. Além do horror diante dos assassinos, sinto um desgosto absoluto com os que defendem o famigerado Estatuto da Criança e do Adolescente, com os que se recusam a discutir a redução da idade penal e, mais ainda, com os que, contritos de sacristia, batem no peito, abrem a boca suja na retórica das entrevistas, e atribuem a culpa da barbárie à "sociedade". À qual, é evidente, não pertencem.
O mais santo dos cidadãos começa a rever suas idéias sobre pena de morte, sobre cidadania que só atinge criminosos, até mesmo sobre desforra física. E chegamos lá: afinal, pelo menos em pensamento, somos todos bárbaros. Todos, claro, exceto os inocentes do bom-mocismo, lemingues sem consciência que, por isso mesmo, dirigem seus carros blindados direto para o abismo.Se um dimenor (expressão jocosa e sinistra para menores de 18 anos) não pode ser punido porque é uma pessoa em formação, como é que se dá a esse mesmo dimenor o direito do voto?! Se ele não está preparado para assumir plenamente as suas responsabilidades de cidadão, como é que pode exercer o direito máximo da cidadania, que é a escolha de quem vai dirigir o país? Eu gostaria muito que qualquer desses gênios da sociologia e da jurisprudência que defendem tratamento especial para criminosos de 16 anos me explicasse essa contradição. De preferência dona Ellen Gracie: uma senhora sempre tão bem maquiada, que tão bem sabe explicar por que os seus coleguinhas meritíssimos precisam daqueles aumentos salariais, haverá de ter uma explicação perfeitamente compreensível para uma distorção dessas.
Como seria de se esperar, todos voltam a bater, mais uma vez, nas teclas da educação e da impunidade. A educação é a base de qualquer sociedade saudável, mas é uma medida de longo prazo. Deve-se falar em educação sempre. Deve-se cobrar melhores condições de ensino e de aprendizado dos governantes e, sobretudo, exemplos mais edificantes do que os que nos são oferecidos diariamente no mar de lama e de corrupção em que se transformou o país. Mas falar em educação quando não podemos mais sair às ruas é mais ou menos como falar em prevenção a incêndios quando já tem gente saltando lá de cima e passando pela nossa janela, enquanto as chamas chegam ao pé da cama. Precisamos é chamar os bombeiros, os "heróicos soldados do fogo", se eles também não estiverem ocupados nas milícias.
Mas é óbvio também que um caso como este, que chocou o país, está longe de ser conseqüência da impunidade generalizada. Sem punição as pessoas roubam mais, assaltam mais, até matam mais - mas não é a falta de punição que gera monstros como os que arrastaram João Hélio, como os que tocaram fogo nos ônibus cheios de passageiros, como a Richthofen que matou os pais, como os filhinhos de família que queimaram o índio em Brasília ou como tantos outros nos quais já desapareceu qualquer sinal de humanidade. Chegamos ao mal absoluto, aquele que não tem explicação.Não estamos falando mais de criaturas ressocializáveis.
Estamos falando de monstros. A prisão para criaturas assim é menos uma punição do que uma garantia de segurança para a população. Não pode ser calculada em três ou 30 anos; é caso de trancar a cadeia e jogar a chave fora.
Em tempo: também já não agüento mais ver tarjas evitando que o rosto dos assassinos "mirins" seja reconhecido quando sabemos que, no primeiro indulto, estarão nas ruas matando novamente! O que precisamos é colocar tarjas no rosto das pessoas de bem, para que não sejam reconhecidas pelos dimenor.

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